Desigualdade Social: Quão fundo é o buraco?
Desigual: não igual, diferente, diverso, irregular, não uniforme, inconstante, descontínuo.
O planeta Terra é bastante não igual em vários aspectos. Fisicamente a Terra é muito diferente: o relevo, o clima, a fauna, a flora (ed etc ad infinitum) são bastante diversos entre si ao redor do globo. Além disso, os recursos naturais não estão todos concentrados em uma única região.
Os recursos estão espalhados irregularmente, distribuídos, sabiamente alocados pela natureza não uniformemente em diferentes locais. Essa descontinuidade promove a diversidade, a biodiversidade, a possibilidade de sobrevivência às diversas espécies. O resultado da “desigualdade” no planeta é justamente o de promover iguais chances a todos.
O mesmo acontece nas sociedades humanas. Somos desiguais, diferentes. Somos diversos em vários aspectos: étnicos, culturais, religiosos, sociais. E é justamente este último que gostaria de abordar.
A desigualdade social é única. Enquanto as outras “desigualdades” no planeta vão no sentido de distribuir os recursos, a desigualdade social vai no sentido de concentrar recursos. Porquê? Estamos em total desacordo com a natureza.
Aparentemente eu não teria porque me preocupar ou reclamar. Tenho acesso à água potável, portanto estou no “topo da cadeia humana” em relação a 45 milhões de brasileiros e a 1 bilhão de pessoas no mundo. Tenho acesso à rede de saneamento básico, logo me situo “acima” de cerca 2,5 bilhões das 7 bilhões de pessoas espalhadas por ai.
A renda em minha família é alta para os padrões nacionais. Tive acesso às melhores escolas e universidades no Brasil e na Europa.
Conclusão: sou rico!
Você agora até poderia estar pensando: milionário!
Porém, se viesse me visitar aqui em casa perceberia (e eu quero destacar bem o verbo perceber) uma casa de classe média. Talvez até classe média alta. Mas a sua percepção é distorcida (leia o artigo em anexo no final: Distribuição de Renda no Brasil: um Ensaio sobre a Desigualdade Desconhecida).
E este é o problema da desigualdade social, a nossa percepção.
Quero fazer você entender que eu sou “rico”, não na concepção romântica do magnata que limpa a bunda com dinheiro, mas em relação ao resto do Brasil e do mundo.
Ah essa tal relatividade! Provavelmente você também é rico, apesar de não saber.
Vamos aos fatos e números que são tão manipulados e escondidos de nós brasileiros.
Tudo o que eu lhe mostrarei a seguir pode ser encontrado no relatório do IBGE: PNAD 2008 – Pesquisa Nacional por Amostras de Domicilio 2008 (também em anexo no final).
A tabela 7.2.3 da pag. 174 do PNAD 2008 nos indica (última coluna) que em 2008 os 10% mais ricos da população detinham 42,7% do rendimento mensal de todos os trabalhos das pessoas de 10 anos ou mais, ocupadas, desse nosso Brasil.
A seguir eu coloco o gráfico da distribuição da renda no Brasil e o cálculo do índice de Gini, feitos por mim com base no PNAD 2008. Reparem como a curva real é distorcida em relação à ideal.
Gráfico da concentraçao de renda no Brasil e índice de Gini. (Clique para aumentar)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Coeficiente_de_Gini.
Este índice, que varia de 0 a 1, tenta estimar o grau de desigualdade social em uma população. Um valor igual a 0 corresponderia a uma sociedade totalmente igual e um valor igual a 1 corresponde a uma sociedade totalmente desigual. O nosso índice de Gini, de 0.52, é um dos mais altos no mundo!!!
No Brasil, um décimo das pessoas detém quase metade de toda a renda. Isso não é bom, não pode ser bom, certo? Mas o que significa?
Vamos a um exemplo numérico hipotético.
Imaginemos que a renda de um país fosse digamos 100 reais mensais e o país tivesse 100 habitantes. Isso quer dizer que nessa sociedade 10 pessoas teriam juntas 43 reais ou uma média de 4,3 reais per capita (por pessoa). O restante das 90 pessoas, teriam juntas 57 reais. Porém somente 63 centavos de real per capita.
O exercício parece bobo nessa escala, mas quando consideramos a economia brasileira (entre as 10 maiores do planeta) e o número de habitantes, a realidade é bem mais dolorosa.
A realidade
O rendimento mensal real dos brasileiros ocupados e maiores de 10 anos (tabela 7.2.4) é de R$ 1.261.
Mas a média é uma ferramenta vil, coisa cruel, enganosa, porque esconde a diversidade, a desigualdade.
Ainda lendo a tabela 7.2.4 vê-se que os 10% mais pobres tem salários de em média R$ 174.
CENTO E SETENTA E QUATRO REAIS? Isso porque o salário mínimo é de R$ 465.
Na faixa entre os 10% e 20% mais pobres o rendimento mensal é de horríveis R$ 379, e até as escalas superiores a coisa não muda muito de figura. Na faixa entre os 60% e os 70% da população o rendimento é de somente R$ 869 mensais.
A nossa PEA (população economicamente ativa) é de cerca 92 milhões de pessoas (tabela 7.2.1). Então isso significa que quase 65 milhões de brasileiros assalariados recebem menos de R$ 900 por mês. SETE trabalhadores em cada DEZ recebem menos de R$ 900 por mês.
Não por menos o número de favelados no Brasil continua a crescer. Em São Paulo são cerca de 1,3 milhão de pessoas vivendo em favelas. Como pagar um aluguel de R$ 500, 600 se a sua renda é de R$ 900?
link: SP tem menos favela e mais favelado.
A concentração é tão absurda que os rendimentos médios mensais dos 80% a 90% dos brasileiros mais RICOS é de R$ 1.903.
Parece pouco ainda pra uma classe média, não? Mas se você ganha R$ 2.000 por mês é mais rico que NOVE em cada DEZ brasileiros.
Entre a parcela 10% mais rica da população esse valor salta para R$ 5.901! Um salto de R$ 1.903 para R$ 5.901 entre as duas últimas faixas.
Mesmo sendo valores estratificados, em média, por faixas, o salto em valor bruto é extremamente grande.
Somente 10% da população tem rendimentos superiores à R$ 5 mil. E a concentração nesses últimos 10% é também de tal modo elevada que entre os 5% mais ricos os salários passam a R$ 8.494 e no estrato 1% mais rico os rendimentos médios são de R$ 16.876.
Esses 1% detém 12,3% de toda a renda enquanto os 10% mais pobres detém apenas 1,2%. Isso não pode ser bom. Isto não é bom. Explica uma série de fenômenos sociais que vemos pelo Brasil a fora.
E mesmo assim os que são ricos falham em reconhecerem-se ricos. Olham somente para “cima” (sempre existirá alguém com mais dinheiro) querendo ser sempre mais ricos (leia no fim o artigo sobre a percepção da distribuição de riqueza no Brasil!).
Depois reclamam das conseqüências. Não querem encarar o reflexo das próprias ações no impulso descontrolado de acumular riqueza.
Reflexo da falta de acesso à água, saneamento, educação, saúde, transporte publico, melhores políticas de impostos e distribuição de renda. Reflexo da violência e da insegurança que aflige as nossas cidades.
Mas ainda assim não querem promover a distribuição de renda. Dizem que o acúmulo é fruto de seus próprios méritos, sem a ajuda dos governos. O que não é verdade.
Nos EUA, o tataraneto do Johnson, aquele da empresa Johnson&Johnson fez um documentário intitulado “The one percent”, i.e., Um por cento. Ele mostra que nos EUA 1% de toda a população detém 40% de toda a riqueza. (No filme ele fala de riqueza, não de renda).
Aqui segue o link para a primeira dos oito partes, com áudio em inglês:
http://www.youtube.com/watch?v=dK8-nr-of30&feature=PlayList&p=285B3DB79385AEE2&index=0&playnext=1
No filme, assim como fiz nesse post, ele somente levanta questões. A intenção é informar. Quase como o trabalho do filósofo, formular questões.
As respostas eu espero que me venham com o tempo. Apesar de cada vez mais eu acreditar que a única forma é tomarmos de volta os nossos governos, onde quer que seja.
Índices de Gini ao redor do mundo.
Deixem comentários no site. Se encontrarem alguma incongruência no que escrevi ficarei mais do que contente em discutir e melhorar as informações que aqui constam.
Leiam o artigo em anexo. Divulguem o blog!
Um abraço.
Rodrigo Teixeira Pinto.
Eles não se renderão jamais (mas lhes convém?), nós também não!
p.s: a coisa està feia na Europa também, por la’ são agora 22 milhões os desempregados.